sábado, 17 de março de 2012

Bullying e cyberbullying: o que você sabe sobre estas formas de opressões?

http://tributoaocordel.blogspot.com/2011/04/
cordel-bullying-uma-tortura-social.html
Há muita coisa sendo pesquisada e escrita a respeito de bullying e cyberbullying. O conceito de bullying é fruto de uma abordagem que generaliza diferentes formas de opressões.
É importante atentarmos para que toda perspectiva universalista cumpre o papel de acobertamento das relações de poder  nas quais prevalecem os interesses contrários aos dos grupos identitários que são oprimidos.
Uma abordagem crítica sobre o bullying deve levar em conta a construção histórica das lutas travadas pelos movimentos sociais de mulheres, negros, indígenas, deficientes, homossexuais e tantas outras minorias. Tais movimentos sociais conquistaram os espaços sem os quais não estaríamos sequer podendo iniciar as discussões sobre bullying.
Negar as lutas históricas e as especificidades dos grupos que são discriminados, excluídos e sofrem violência, não qualificar quais são os grupos oprimidos e quais são os grupos opressores despolitiza o debate e minimiza a ação de tais grupos.
Outro aspecto do qual se deve cuidar, é que boa parte dos discursos que ouvimos diariamente sobre bullying expressam a influência da mídia sensacionalista, que explora, banaliza e reforça o senso comum em relação ao tema.
Nas escolas temos alunos, professores e outros membros da comunidade que vão para além do olhar superficial e imediatista, buscando informações embasadas em pesquisas científicas e nas experiências e conhecimentos construídos pelos movimentos sociais, levantando questionamentos mais amplos e desenvolvendo seu senso crítico.
As informações adiante elencadas não substituem a busca da compreensão crítica e que questiona a maneira como nossas sociedades apropriam-se das diferenças para transformá-las em desigualdades sociais.
Atualizarei periodicamente esta postagem. Edwiges


Temas desta postagem:
1) Definição de bullying e suas características
2) Relação entre o conceito de bullying e o conceito de "outsiders", de Norbert Elias
3) Bullying não ocorre só na escola
4) A banalização do bullying pela mídia sensacionalista e o senso comum

5) Medidas de combate ao bullying
6) Assédio moral e bullying
7) Cyberbullying
8) Leia mais sobre bullying

1) Definição de bullying e suas características
Primeiramente, bullying é um conceito que define a repetição intencional, sobre uma mesma pessoa, de práticas de opressão já conhecidas: marginalização, discriminação, estigmatização, assédio e agressão verbal e física contra aqueles que estão em condições de menor poder no grupo (abuso de poder), humilhação, intimidação, etc. 

Kenneth Shore define assim: "Existem, portanto, três características no bullying: é deliberado/intencional, acontece mais de uma vez, e há um marcante desequilíbrio de poder entre o bully e a vítima".

Leiam, ouçam e assistam ao cordel de Caca Lopes e Nando Poeta: "Bullying: uma tortura social", no qual eles dizem: "A onda de preconceito,/Que traz no berço o racismo,/Faz girar por todo o mundo/O mal do xenofobismo,/Espalha a homofobia/E dissemina o machismo". Algumas formas de bullying referidas neste cordel são formas de opressão contra determinados grupos sociais. O racismo é uma opressão étnica, que no Brasil se manisfesta especialmente contra negros e indígenas brasileiros, mas também contra asiáticos, indígenas de outras regiões das Américas, etc. Podemos considerar a xenofobia uma forma de opressão quando direcionada a imigrantes que buscam formas de sobrevivência em um país que não é o de sua origem e são discriminados, marginalizados. A homofobia é a opressão contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transsexuais. Finalmente, o machismo é uma forma de opressão que atinge as mulheres desde sua concepção e pela vida toda.

O vídeo adiante tem o título "O BULLYING NAS ESCOLAS, UM VERDADEIRO TRATADO SOBRE O ASSUNTO"

2) Relação entre o conceito de bullying e o conceito de "outsiders", de Norbert Elias
Na 2a. série do EM estudamos os conceitos de "outsiders" e estabelecidos, de Norbert Elias, e buscamos relacioná-los com temas como o bullying, por exemplo.

Ana Luíza Fayet Sallas diz em sua resenha sobre o livro  de Norbert Elias "Os Estabelecidos e os Outsiders: Sociologia das Relações de Poder a partir de uma Pequena Comunidade":"No centro de suas discussões estavam as relações de poder e de status no interior de uma comunidade. (...) Da figuração estabelecidos-outsiders, Elias identifica uma constante universal: 'o grupo estabelecido atribuía aos seus membros características humanas superiores; excluía todos os membros do outro grupo de contato social não profissional com seus próprios; e o tabu em torno desses contatos era mantido através de meios de controle social como a fofoca elogiosa no caso dos que o observavam, e a ameaça de fofocas depreciativas contra os suspeitos de transgressão' (:20). (...) E aqui está, no meu ponto de vista, um achado de Elias: pensamos constantemente a partir do foco das diferenças – sexo, cor, classe, nação – como diferenciais estruturais das relações de poder. Dificilmente chegamos a problematizar questões em que estão colocados os termos da igualdade, ou que o diferencial de poder possa estar associado, como é o caso deste estudo, ao tempo de residência naquele lugar e ao maior ou menor grau de coesão e organização de cada grupo inter-relacionado." (p. 217 a 218)

3) Bullying não ocorre só na escola
O bullying não é um fenômeno exclusivamente escolar e tem sido confundido com isso pois é nos meios educacionais que ele tem sido muito discutido, devido a ser a escola um espaço privilegiado para se combater e informar sobre o bullying. Leia a definição do que é bullying da Revista Escola:

"Bullying é uma situação que se caracteriza por agressões intencionais, verbais ou físicas, feitas de maneira repetitiva, por um ou mais alunos contra um ou mais colegas. O termo bullying tem origem na palavra inglesa bully, que significa valentão, brigão. Mesmo sem uma denominação em português, é entendido como ameaça, tirania, opressão, intimidação, humilhação e maltrato.
"É uma das formas de violência que mais cresce no mundo", afirma Cléo Fante, educadora e autora do livro Fenômeno Bullying: Como Prevenir a Violência nas Escolas e Educar para a Paz (224 págs., Ed. Verus, tel. (19) 4009-6868 ). Segundo a especialista, o bullying pode ocorrer em qualquer contexto social, como escolas, universidades, famílias, vizinhança e locais de trabalho. O que, à primeira vista, pode parecer um simples apelido inofensivo pode afetar emocional e fisicamente o alvo da ofensa.
http://www.vejaaqui.com/site1/
index.php?option=com_content&view
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Além de um possível isolamento ou queda do rendimento escolar, crianças e adolescentes que passam por humilhações racistas, difamatórias ou separatistas podesm apresentar doenças psicossomáticas e sofrer de algum tipo de trauma que influencie traços da personalidade. Em alguns casos extremos, o bullying chega a afetar o estado emocional do jovem de tal maneira que ele opte por soluções trágicas, como o suicídio."


4) A banalização do bullying pela mídia sensacionalista e o senso comum
Algumas pessoas concluem que o bullying foi a causa da tragédia de Realengo, RJ, devido à abordagem de senso comum da mídia sensacionalista que focou neste ponto, muitas vezes, deixando de fazer a crítica a que tipo de sociedade é essa que propicia o isolamento de uma rapaz que sofria de uma doença mental que deveria ser acompanhada pelo serviço médico que o atendia e que não cumpriu seu papel. Havia o agravante de que ele se isolara após a morte da mãe adotiva. Ninguém viu isso? Leia o artigo de Duarte Pereira, que postei em 21 de abril deste ano: Um olhar sociológico sobre a tragédia de Realengo .

Vale lembrar o que estudamos na 1a. série do EM: "O(a) sociólogo(a) procura fugir do senso comum ao tratar de um tema sobre o qual estuda, ao evitar o imediatismo e a superficialidade, buscando trabalhar com diferentes aspectos da mesma questão; procurando entender quem são as pessoas envolvidas na situação; olhando sob diversos ângulos para seu assunto de estudo, para compreender as diferentes causas dos fatos e motivos das diversas pessoas envolvidas. Isso tudo leva a uma visão da complexidade de cada tema, sendo que ele varia segundo a época e a sociedade, segundo os motivos e conforme os estratos sociais envolvidos. Ele evita o preconceito ao afastar afirmações que expressem qualquer tipo de avaliação ou julgamento sobre as pessoas envolvidas no fenômeno que está estudando; finalmente, demonstra que toda compreensão sociológica e científica sobre um assunto exige uma reflexão ampla. Dessa maneira, ele evita generalizações indevidas."

5) Medidas de combate ao bullying
Sobre as medidas de combate ao bullying podemos acessar algumas matérias que irei atualizando periodicamente:

a) Em setembro de 2010, o delegado Bruno Fontenele Cabral escreveu: Reflexões sobre o combate ao bullying no direito brasileiro e norte-americano, um artigo bastante detalhado e com referências bibliográficas que podem interessar a quem queira aprofundar-se no tema.

b) Até maio de 2011 não há uma lei no Brasil sobre bullying! Como vocês podem ver na reportagem do UOL, em 19/04/2011, há apenas um anteprojeto:
"Promotores da Infância e Juventude de São Paulo querem que o bullying seja considerado crime. Um anteprojeto de lei elaborado pelo grupo prevê pena mínima de 1 a 4 anos de reclusão, além do pagamento de multa. Se a prática for violenta, reiterada e cometida por adolescente, em caso de condenação, o autor poderá ser acolhido pela Fundação Casa.
Pela proposta, pode ser penalizado quem expuser alguém de forma voluntária e mais de uma vez a constrangimento público, escárnio ou degradação física ou moral, sem motivação evidente e estabelecendo com isso uma relação desigual de poder. Se o crime for cometido por mais de uma pessoa, por meio eletrônico ou por qualquer mídia (cyberbullying), a pena será aumentada de um terço até a metade. E, se cometido contra menor de 14 anos ou pessoa com deficiência mental, a pena aumenta ainda mais um terço.
Quando resultar em lesão grave, a pena será de reclusão de 5 a 10 anos. Se ocasionar a morte da vítima, a reclusão será de 12 a 30 anos, além de multa - a mesma prevista para homicídios. O anteprojeto prevê ainda que, se a prática resultar em sequela psicológica à vítima (provada por meio de laudos médicos e psiquiátricos), a pena de reclusão será de 2 a 6 anos e multa. No entanto, como o bullying na maioria dos casos é praticado por crianças e adolescentes, os promotores vão precisar adaptar a tipificação penal dessas práticas à aplicação de medidas socioeducativas.
http://6anarede.blogspot.com/2011/04/o-
bullying-na-escola-o-bullying-comeca.html
O anteprojeto será submetido no próximo dia 6 de maio a aprovação na Promotoria da Infância e Juventude do Ministério Público e, depois, encaminhado ao procurador-geral, Fernando Grella, que deve enviar o texto a um deputado federal. As informações são do Jornal da Tarde."
http://loucurasdomundo.com/
conheca-os-tipos-de-bullying/

6) Assédio moral e bullying
São formas de violência verbal ou física com muitos pontos em comum, porém diferentes no que se refere a quem pratica e quem sofre, pois o assédio moral ocorre entre pessoas de grupos hierárquicos diferentes e o bullying ocorre entre pessoas de um mesmo grupo hierárquico. Leia no blog "Bully: No Bullying" a explicação de Carolina Giannoni Camargo: Bullying ou assédio Moral? 

7) Cyberbullying
A publicação de uma foto de terceiros nas redes sociais pode ser considerada como um ato de cyberbullying?

Sim, pois a publicação nas redes sociais foge ao controle de quem a fez inicialmente e, mesmo que o ato de quem publicou não tenha sido repetitivo (característica que define o bullying, em geral), o fato de outras pessoas poderem repetí-lo já leva a uma similitude ao bullying.

Pesquisando, para subsidiar nossa discussão, encontrei no site Nova Escola dois itens que esclarecem: I) "Como lidar com o cyberbulling? Mesmo virtual, o cyberbulling precisa receber o mesmo cuidado preventivo do bullying e a dimensão dos seus efeitos deve sempre ser abordada para se evitar a agressão na internet. Trabalhar com a ideia de que nem sempre se consegue tirar do ar aquilo que foi para a rede dá à turma a noção de como as piadas ou as provocações não são inofensivas. 'O que chamam de brincadeira pode destruir a vida do outro. É também responsabilidade da escola abrir espaço para se discutir o fenômeno', afirma Telma Vinha, doutora em Psicologia Educacional e professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).", II) "Cyberbullying: a violência virtual -Na internet e no celular, mensagens com imagens e comentários depreciativos se alastram rapidamente e tornam o bullying ainda mais perverso. Como o espaço virtual é ilimitado, o poder de agressão se amplia e a vítima se sente acuada mesmo fora da escola. E o que é pior: muitas vezes, ela não sabe de quem se defender";
Alguns especialistas consideram que  as publicações, por jovens e crianças, que envolvam adultos podem ser entendidas como bullying contra o adulto, portanto, para conhecer esta concepção leiam a reportagem Bullying contra professores na web. Nela você poderá verificar que há diferentes atitudes de professores diante do fato. No caso da escola pública há o agravante de que alguns casos podem ser considerados como desacato ao funcionário público, que também é normatizado em uma lei específica.

8) Leia mais sobre bullying

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