sábado, 25 de abril de 2009

Ensaio Sobre a Cegueira, o livro de José Saramago

Caros leitores


Li as primeiras páginas de Ensaio sobre a Cegueira com a moderação de quem está mais uma vez impressionada e quer apreciar minuciosamente a capacidade de Saramago em sintetizar narração, comentários sobre a narração e críticas sobre nossa sociedade. Diria que sua literatura me deixa extasiada e com uma inveja benéfica. Inspirei o teor do livro e, gradualmente, como quem engrena numa corrida, passei a lê-lo mais intensamente até não largá-lo enquanto não terminasse. Porém, terminar um livro de Saramago não significa encontrar um final, uma resolução de conflitos. Ele termina como cada etapa da vida, com novas perspectivas a serem visitadas, enfrentadas, vividas.


Imagem disponível em:

Vou reproduzir neste blog duas críticas, ambas feitas a partir de uma visão socialista (o próprio Saramago é um comunista), que considero interessantes para o início de seu contato com essa obra. A primeira é de Cristiano Nery, sobre o filme Blindness (Cegueira) feito a partir da adaptação do livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. A segunda é de Fábio José, sobre o livro mesmo.
"O que se vê na Cegueira
Cristiano Nery, de São Paulo (SP)

(...)o filme Ensaio Sobre a Cegueira, do diretor, Fernando Meirelles (O Jardineiro Fiel e Cidade de Deus) (...) é baseado no livro homônimo do escritor português, José Saramago, prêmio Nobel de literatura e um dos escritores mais reverenciados da atualidade.

Imagem disponível em: altacultura.wordpress.com/
O lançamento do filme foi esperado com bastante expectativa, pelo grande sucesso do livro e pela ansiedade de viajar por essa intrigante história através de imagens e sons que podem ser proporcionados pela grande tela.
O filme nos prende à agonia sentida pelas pessoas que têm suas visões substituídas por uma névoa branca e pastosa como leite, chamada de cegueira branca. No início, só algumas pessoas perdem a visão e são trancadas num velho manicômio. Depois, a cegueira branca se alastra para todas as pessoas, exceto à mulher do médico, única que continua a enxergar. No entanto, ela mente para poder ficar ao lado de seu marido, presenciando tudo que acontece sem revelar seu segredo.
O filme nos faz viajar no comportamento humano através do caos provocado pela falta de visão, em que as necessidades mais básicas fazem aflorar um comportamento quase animalesco. As pessoas acabam expressando todo seu racismo, machismo, egoísmo e individualismo. Nesse sentido, o filme tem a incrível capacidade representar as contradições do ser humano.
O desenrolar do filme nos faz enxergar um paralelo entre o caos estabelecido pela cegueira branca e o caos que vivemos no dia-dia, com suas devidas proporções, por conta da pseudo-ordem estabelecida pelas leis e pelo Estado. A verdade é que, como no filme, as pessoas vivem o dia-dia para satisfazer simplesmente a suas necessidades puramente animais – matando-se de trabalhar para poder conseguir o pão de cada dia.
A cegueira Comum
A mulher do médico, embora enxergue muito bem, acaba se adaptando a um outro tipo de cegueira bastante comum. A personagem fica acostumada com a situação, assim como acontece na realidade da nossa sociedade onde as pessoas que enxergam acabam se adaptando a um tipo de cegueira social imposta à maioria. Assim, acabam aceitando viver embriagadas com as superficialidades consumistas da sociedade capitalista, se submetendo ao caos e à loucura que vivemos.
É uma clara referência de uma velha discussão filosófica sobre a relação entre aparência e essência, realidade e verdade, isto é, o modo como os homens interpretam a realidade. A verdadeira aparência das coisas só se revela para a personagem central da trama. E como diz uma frase no início do livro de Saramago, a verdade se apresenta após insistentes tentativas: 'Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara'.
No filme, as barbaridades vão acontecendo até que a mulher decide tomar parte da situação e agir como quem enxerga de fato. Daí para diante, a história começa a tomar outros rumos. Quando as personagens começam a agir coletivamente, a esperança volta a reinar abrindo espaço para o futuro.
O que vi na Cegueira
Estas são minhas impressões sobre o filme. Cada um que assisti-lo, entretanto, poderá ter sensações diversas, pois a narrativa e o modo como esta se constrói permitem isso. Contudo, infelizmente, a tendência é que cada vez mais os filmes imponham as mesmas sensações com os padrões hollywoodianos, para se tornarem sucessos de bilheteria.
O próprio Ensaio Sobre a Cegueira sofreu vários cortes nas cenas de estupro, por exemplo, para diminuir a sua intensidade. O filme passou por um funil de padronização chamado test screnings, que nada mais é do que rodar o filme para algumas centenas de pessoas antes do lançamento. Elas opinam sobre o que mudar na obra. Os realizadores aplicam as alterações para tornar o filme mais consumível.


[Observação de Edwiges: veja o blog de Fernando Meirelles: http://blogdeblindness.blogspot.com/ ]
Isso torna cada vez mais raro o surgimento de inovações. Nos dias de hoje, estão cada vez mais escassos os filmes que quebram paradigmas, com inovações e novidades em todos os âmbitos da arte audiovisual.
Apesar disso, vale a pena ver Ensaio sobre a cegueira. Não deixa de se um bom filme. Porém é necessária a crítica à padronização da cultura. Acredito que o filme poderia contribuir mais se expressasse a visão do diretor sem cortes, deixando a interpretação e as sensações por conta dos espectadores. (...)" Disponível em: http://www.pstu.org.br/ . Acesso em: 25 abr. de 2009.

"Ensaio sobre a cegueira: um libelo contra a cegueira neoliberal
Fábio Joséde Fortaleza (CE)
Em meados dos anos 1990, José Saramago, um velho comunista, escreveu Ensaio sobre a cegueira, um dos seus últimos trabalhos antes de ser laureado com o Prêmio Nobel de Literatura (1998). Quando escreveu esse romance, o ficcionista português se destacava como um dos críticos mais duros do vale-tudo dos sombrios tempos de hegemonia neoliberal. Implicitamente invocado, o período de supremacia do neoliberalismo pode ser vislumbrado no Ensaio, embora sujeito às perspectivas metafóricas de uma obra literária.
Imagem disponível em: alibemtempu.blogspot.com/
Convém notar que a década passada se caracterizou pela reação em toda linha. No terreno econômico, as privatizações e a abertura das economias dependentes ao capital internacional ganharam foros de cidadania. No plano militar, a ofensiva do imperialismo norte-americano revestiu-se de grande relevo e quase sem resistência. Por fim, projetando-se sobre diversos domínios, a ideologia do pensamento único neoliberal agiu como suporte para justificar a retirada de direitos sociais. Esse cenário dantesco engendrou toda uma ideologia centrada no individualismo e uma moral correspondente: a moral do vale-tudo.
Na produção literária do mestre lusitano, a cegueira é a metáfora penetrante de um tempo. Não de um tempo abstrato. Toda obra de arte é produto de uma época e se alcança épocas distintas o faz sem renunciar inteiramente ao seu ponto de partida. Assim como não podemos prescindir do contexto das conquistas, ao analisar Os lusíadas, de Camões, não devemos dispensar a adequada contextualização no que diz respeito ao texto de José Saramago. Em suas páginas vocifera o seu percurso gerativo e esse encerra um elo, essencialmente, com a derradeira década do século passado.
Antônio Cândido ensina que a obra de arte é grande na medida em que se distancia do seu ponto de partida. Decerto, Saramago cumpre esse ritual com reconhecida capacidade. Isso, contudo, não suprime a possibilidade de uma análise dos aspectos sociais que se cruzam com os elementos da criação literária.
A cegueira dos anos 1990 pode ser pressentida na mancha branca que priva as personagens de ver e entender. As dificuldades de sobrevivência põem as pessoas dentro de limites bem restritos. Em tais circunstâncias, é como se a humanidade estivesse sendo colocada à prova. Os valores de cada um são postos à verificação.
Naqueles tristes anos, o individualismo e o vale-tudo fizeram sucumbir os valores de solidariedade construídos principalmente pelos de baixo ao longo de décadas de luta. Orientando-se por mitos como os do “fim da história” e “fim do socialismo”, o capitalismo conseguiu cegar ideologicamente toda uma geração e o desmonte de grandes conquistas da classe trabalhadora espalhou-se como uma epidemia.
No romance de José Saramago, a cegueira se espalha epidemicamente. Nessa toada, um “olho que está cego transmite a cegueira ao olho que vê”. Começa com um homem dentro de um carro e a sua contaminação por uma luz branca, quer dizer, uma “escuridão branca”. Logo, a “cegueira branca” se dissemina, tornando-se praga, produzindo tortura e sofrimento.
Sem reservas verbalistas, os poderes constituídos deduzem que a quarentena é a saída para fazer frente à inusitada epidemia. Paga-se um preço pela acentuada simplificação, pois logo o súbito acesso epidêmico se revela em toda a sua abrangência. Uma personagem recorda que o medo cega. Pior do que isso, no entanto, é uma situação em que se observa a existência de “Cegos que, vendo, não vêem”. Deixam-se tomar pelo caos, pela confusão de pensamento e sujeitam-se a um misto de comodismo e egoísmo. A incapacidade de ver é simétrica à inabilidade de entender o que está se passando.
No livro de Saramago, os cães devorando o cadáver de um homem traduzem uma imagem barbárie. Esta imagem, apesar da sua brutalidade, não se encontra em rota de colisão com o triunfo da bárbara ordem neoliberal estabelecida na década de 1990. Metaforicamente, a sugere.
Em 1998, o escritor lusitano escreveria O conto da ilha desconhecida, em que, figurativamente, aventava a possibilidade de que as utopias não morreram. Um homem acreditava que havia ainda uma ilha a ser descoberta e, portanto, a história ainda não dera a sua última palavra. Em poucas palavras, não findara.
Acontece que quando o autor começa a escrever o Ensaio parecia que o capital triunfara definitivamente. Tinha-se a impressão de não haver mais espaço para utopias como solidariedade, coletividade e socialismo. Toda uma geração parecia terminantemente cega e a humanidade caminhava para o patíbulo.
Em Ensaio sobre a cegueira, lê-se: “O mundo está todo aqui dentro”. Nas entrelinhas da sua narrativa, há uma reflexão crítica apenas insinuada, mas perceptível: “O outro também dizia que quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo, ou no partir não tem arte”. Há melhor tradução do cinismo neoliberal? Da moral do vale-tudo?
Na narrativa, a mulher que enxerga termina desempenhando, guardando as devidas proporções, o papel cumprido por aqueles que resistiram ser arrastados pelo obscurecimento promovido pelo neoliberalismo. Algo que tem a ver com 'a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam'. No romance, a esposa do médico (que atendeu o primeiro caso da inusitada moléstia) cumpre essa responsabilidade.
No ano em que Fernando Meirelles adaptou o livro para tela do cinema e em que o capitalismo mergulha em um novo e crucial ciclo de crise, nada como ver o mundo com os olhos bem abertos. Para tanto, é preciso considerar as condições históricas da criação artística.
As coisas, inclusive no campo da arte, não são inventadas do nada e não se realizam no vazio. O livro em tela, a meu ver, permite, em última análise, chamar a atenção não apenas para uma forma misteriosa de cegueira, caso explícito do texto, mas para toda e cada uma das formas em que ela se reveste, inclusive a político-idelógica." Disponível em: http://www.pstu.org.br/ . Acesso em: 25 abr. de 2009.
Ao final da crônica do próprio Saramago, sobre a adaptação de seu livro por Fernando Meirelles (http://caderno.josesaramago.org/2008/10/28/fernando-meirelles-c%c2%aa/), ele nos conta que sua companheira Pilar diz que não há na crise capitalista que vivemos uma "mulher do médico" para nos guiar. Saramago, comunista, faz uma provocação às lideranças das esquerdas dizendo quase concordar com ela.
Minha compreensão sobre essa questão em Ensaio Sobre a Cegueira é de que, assim como a "mulher do médico" quase exaure suas forças no esforço para liderar "os que 'estão' cegos", as lideranças de esquerda (a vanguarda) somam esforços e utilizam todas as suas capacidades para avançar rumo ao socialismo. Porém, o trabalho é imenso, são muitos os que "estão" cegados.
Para saber mais sobre o livro e o filme, visitem:
o Uakti (grupo que fez a trilha sonora do filme): http://www.youtube.com/watch?v=kbX7xFQirnw.
Edwiges

2 comentários:

  1. (CÁSSIO HUMBERTO )

    É um filme excelente capaz de mostrar e tocar o mais intimo de cada pessoa mostrando como o ser humano esta acabando com a sua própria vida, também retrata a fragilidade do ser humano. Ou seja, Perder a visão foi para essas pessoas uma forma de mostrar o quanto as pessoas não se unem e sim querem ser melhores que as outras.
    O filme em geral tenta mostrar como o ser humano chega ao estremo, e como se pode na ausência de sentidos tentar sobreviver dignamente, mas mostra o lado animal, onde sobreviver muitas vezes é o único objetivo. Levam-nos a acreditar que realmente vivemos cegos diante de tanta desigualdade social, miséria, violência, e passamos despercebidos por tudo isso, onde a vergonha e o pudor não representam mais nada para o homem, já que ninguém conseguirá ver os atos de cada um. E é através das atitudes e da personalidade que existe dentro de cada um de nós que passamos a produzir concepções sobre as outras pessoas, e conhecê-las não por seu nome, cor, classe social, mas por seu verdadeiro eu, e não apenas enquanto cegos aprenderíamos a viver com outras pessoas diferentes de nós, mas também passaríamos a compreendê-las. O filme realmente mexe com as pessoas na forma que elas menos esperam, desperta algo em nos mesmos, algo que esquecemos há muito tempo, a compaixão.
    A nossa cegueira é medo que não nos permite ver e valorizar o belo, o comum e o simples, assim como nos afastam de pequenas batalhas, que apesar de verdadeiras, nos retiraria de tantas ostentações.

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  2. Olá, Cássio

    Você acompanha o blog do Saramago? tem um texto do dia 10 de novembro que talvez te interesse. Mas, leia os anteriores e posteriores também, tem muita coisa boa, apesar de muitas vezes Saramago ser um tanto otimista quanto à conscientização das pessoas do poder. Noutras ele revela sua lucidez e se dirige, conclamando, diretamente os expropriados do poder. Como a mulher do médico, em A Cegueira, chega momentos de se mostrar intolerância com os abusos, e nesses momentos Saramago tem a língua afiada.
    http://caderno.josesaramago.org/2009/11/10/nao-ao-desemprego/
    Boa leitura

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